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Aqui estão os destaques desta edição. >> Matérias - A dança de salão em festivais de todos os tamanhos para todos os gostos; Louise Lecavalier no Brasil e a volta da Quasar com "só tinha que ser com você". >> Colunistas - Caminada se despede de Halina Biernacka e Marília Franco: Leonel Brum e a demanda de mercado; Valério Césio conta o que foi a temporada 2005 do American Ballet Theatre.
Edição 71 - Mar e Abr de 2006
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Coluna Leonel Brum

VIDEODANÇA – UMA DEMANDA DO MERCADO

Desde a minha primeira coluna, venho procurando trazer aos leitores um mapeamento da produção nacional e internacional de videodança através de eventos que se dedicam à exibição e produção desse tipo de obra.

Numa perspectiva brasileira, existem poucos festivais envolvidos com o tema. Entre eles, destaca-se o recentemente extinto Dança Brasil (Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro e Brasília) e o Festival Internacional da NovaDança (Brasília). Ambos iniciaram suas mostras paralelas de vídeos de dança em 1997, além de promover outras atividades, como palestras e debates sobre o tema.
Outro destaque vai para o Rumos Dança, do Itaú Cultural (São Paulo), uma iniciativa que, em 2004, comissionou, pela primeira vez no Brasil, duas produções de videodança: Pé de Moleque, de Kiko Ribeiro e Dafne Michellepis; e Dentro do Movimento, de Chico de Paula e Patrícia Werneck. Recentemente, o evento lançou outra convocatória (com prazo até 31 de maio – vide website abaixo) para a produção de mais cinco obras do gênero.

Do ponto de vista da exclusividade, até que se prove o contrário, o Dança em Foco (SESC – Rio de Janeiro) é o primeiro festival brasileiro inteiramente dedicado à interface vídeo/dança. Uma iniciativa única no país também na criação de parcerias com outros festivais da América Latina. Desde 2004, o evento é associado ao Festival Internacional de Videodanza del Uruguay e ao Festival Internacional de Video-Danza de Buenos Aires, formando o Circuito Videodança Mercosul, uma espécie de compilação de importantes obras dos três países. Na sua última edição, o Dança em Foco encerrou a temporada de lançamentos deste circuito. O Uruguai foi o primeiro fazendo o lançamento em outubro, seguido da Argentina, em novembro, e, finalmente, do Brasil, em dezembro.

Ainda nessa edição de 2005, o Dança em Foco também consolidou uma plataforma de exibição internacional onde se destacaram produções francesas e norte-americanas. Além da mostra de videodança a programação contou com oficinas, palestra e mesa redonda com a participação de convidados nacionais e internacionais.

De fato, a videodança é uma forma artística em pleno desenvolvimento em vários países do mundo, unindo tecnologia, dança, vídeo e cinema em obras de grande visibilidade através de festivais, distribuição direta e apresentações na televisão. A videodança é definitivamente o veículo de maior alcance para a coreografia contemporânea. Seu espaço no cenário artístico nacional, ainda restrito, cresce visivelmente. Apesar disso, as tentativas de conceituação deste tipo de obra ainda continuam limitadas, já que não conseguem abranger as inúmeras possibilidades de criação.

Pode-se pensar na videodança como o diálogo entre a dança e o vídeo cujo resultado gera um tipo de obra onde essas linguagens se tornam indissociáveis. Uma arte que existe apenas no vídeo e para o vídeo. Enfim, trata-se da materialização de um pensamento que integra as idéias do coreógrafo e do videomaker numa forma híbrida que não deixa distinções entre o vídeo e a coreografia. Mas essa é apenas uma das inúmeras leituras possíveis, pois encontramos variáveis a cada nova criação.

Do ponto de vista histórico, a bailarina e cineasta ucraniana Maya Deren foi quem introduziu um modo diferente de pensar e agir na convergência entre o audiovisual (no caso, o cinema) e a dança. Em seu artigo Choreography for the Camera, publicado na Dance Magazine, em outubro de 1945, ela afirmou que o bailarino e o cineasta deveriam saber um pouco do ofício do outro para que o filme se tornasse uma obra híbrida. Ela não acreditava numa criação onde o bailarino estivesse preocupado somente com a própria composição coreográfica e o cineasta com os efeitos pictóricos da fotografia. Os filmes mais conhecidos da coreógrafa foram: Meshes of the Afternoon (1943); A Study in Coreography for Camera (1945), Ritual in Transfigures Time (1945/6); e The Very Eye of Night (1952/59). Em 2002, através de uma parceria entre a Áustria e a República Checa, foi criado In the Mirror of Maya Deren, de Martina Kudlacek, um belo documentário sobre a vida da artista.

Ainda nos Estados Unidos, outras importantes contribuições vieram do coreógrafo americano Merce Cunningham, que desde a década de 1970 já trabalhava em parceria com o videomaker Charles Atlas e, mais recentemente, com Elliot Kaplan. Na Bélgica, na década de 1980, a famosa coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker, diretora do grupo Rosas, criou uma obra com o famoso cineasta Peter Greenaway e outras com o músico e cineasta Thierry De Mey. Lloyd Newson, diretor do grupo inglês DV8, trabalhou com os diretores David Hinton e Clara Van Gool. Há outros artistas que não podem deixar de ser citados como importantes criadores de videodança, entre eles: os coreógrafos Phillippe Decouflé, Angelin Preljocaj, Suzanne Linke, Meg Stuart, Mats Ek, Sylvie Guillem, e o cineasta Cyril Collard.

No Brasil a bailarina, coreógrafa e videomaker Analívia Cordeiro é considerada a pioneira tanto na videodança, como na videoarte. Entre suas criações destacam-se M3x3 (1973), Slow-Billie Scan (1977), Trajetórias (1984), 0°=45 (1974/1989), Ar (1985), Striptease (1997), e, mais recentemente, Carne (2005), exibida na última edição do Dança em Foco. Outros nomes importantes de coreógrafos e videomakers que vêm produzindo videodança no Brasil são: Nelson Enohata, Cecília Lang, Henrique Rodovalho, Kleber Damaso, Lilyen Vass, Alex Cassal, Fernanda Lippi, André Semenza, Mara Castilho, Andréa Maciel, Paulo Mendel, Angélica Carvalho, Eduardo Sánchez, Andréa Bardawil, Alexandre Veras Costas, Karen Virgínia, Luiz Carlos Bizerril, Sheila Ribeiro, Rodrigo Raposo, Letícia Nabuco, Tatiana Gentile, Thelma Bonavita, Luciana Brites, João Andreazzi, Maíra Spanghero, Gilsamara Moura, Lara Pinheiro, entre outros.

Uma lista bastante expressiva considerando que a maioria desses criadores produz suas obras com recursos próprios. Com efeito, essa demanda poderia ser atendida, por exemplo, por festivais, seja abrindo janelas de exibição em sua programação, seja lançando editais que forneçam recursos financeiros para este tipo de produção. Acredito que estas iniciativas, acompanhadas do apoio de canais de televisão e de outras instituições patrocinadoras, possam estabelecer, em médio prazo, um mercado brasileiro de videodança.

Leonel Brum (leobrum@terra.com.br)
Pesquisador e Diretor Artístico do Dança Brasil
e Dança em Foco e um dos fundadores do
Circuito Vídeo-dança Mercosul.

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