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Aqui estão os destaques desta edição. >> Matérias - A dança de salão em festivais de todos os tamanhos para todos os gostos; Louise Lecavalier no Brasil e a volta da Quasar com "só tinha que ser com você". >> Colunistas - Caminada se despede de Halina Biernacka e Marília Franco: Leonel Brum e a demanda de mercado; Valério Césio conta o que foi a temporada 2005 do American Ballet Theatre.
Edição 71 - Mar e Abr de 2006
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Coluna da Caminada

Halina Biernacka

Ambas viveram em São Paulo e desempenharam importante papel na história do desenvolvimento da história do nosso ballet. Nos deixaram, levando consigo a certeza do papel cumprido, a convicção de que atenderam à força da vocação.

Refiro-me a Halina Biernacka e a Marília Franco.

Soube do falecimento de Halina Biernacka através de seu aluno e eterno admirador Thadeu de Carvalho. Não tive o privilégio de conhecê-la, mas a vida me reservou a felicidade de assistir a duas de suas mais brilhantes discípulas: Cecília Kerche e Cecília Botto.

Cecília Kerche, glória de hoje, embaixatriz brasileira da dança, dispensa apresentações, até porque continua em plena forma atuando no Theatro Municipal do Rio e em galas pelo país e pelo exterior.
Cecília Botto viajou cedo, não teve tempo de firmar em sua própria pátria seu nome de grande bailarina. Mas eu pude vê-la e nunca a esqueci. Muito loura, tinha uma figura pura e diáfana. Em 1962, fora uma das representantes do Brasil no 1º Concurso Internacional de Ballet do Rio de Janeiro, que contara com a participação de mais de 70 candidatas do mundo inteiro. Não lembro de suas provas de repertório, mas sua variação de livre escolha, criada por Biernacka, ficou para sempre na minha lembrança. Foi ali, mais do que em qualquer outro momento do concurso, que a mestra, mostrando sua competência, revelou a bailarina que orientara. Cecília chegou a primeira-bailarina da Rambert Dance Company.

Ainda devemos a D. Halina a primeira remontagem brasileira, em Santos, de “La Sylphide” na versão completa de Auguste Bournonville. Os intérpretes principais foram Cecília Botto e Aldo Lotufo, nosso maior mito de bailarino.

Uma só mestra: Halina Biernacka. Duas bailarinas com o mesmo belo nome próprio: Cecília. Duas bailarinas com carreira internacional.

Certamente D. Halina preparou muitos outros bailarinos de projeção. Num filme de segundos, mas lindo, que me foi enviado por Marisa Pivetta, tive a felicidade de constatar que registraram fragmentos de sua vida, algo absolutamente incomum entre nós!!! - Halina Biernacka: 1914-2005.

A notícia da morte de Marília Franco também me veio através de uma ex-aluna, Karin Guimarães, pela internet. Lera em meu site o livro que escrevi sobre a vida de Vaslav Veltchek, com quem Marília fora casada, e agradecia as referências à sua mestra.

Pensei: preciso registrar o desaparecimento dessas duas grandes figuras da nossa história.
Marília encantara um mestre internacional como Veltchek e conquistara o público e a crítica do Theatro Municipal do Rio na temporada de 1943. Seu sucesso fora tão expressivo que acabara com seu próprio casamento: sua carreira a levara ao exterior tornando-a uma das primeiras bailarinas brasileiras a fazer sucesso internacional, atuando com destaque no Original Ballet Russo.

Sua interpretação em “Bacante: Dança da Sacerdotiza de Baco” causara impacto. "Dionisíaca", disseram os experts dessa paulista, muito jovem e bonita, trajando uma túnica escarlate.
Um trecho do livro me pareceu especialmente interessante de ser transcrito pela referência a três figuras paradigmáticas do nosso ballet:

“...O Globo de 28 de abril de 1943 publicou matéria sob o título "O que se pode esperar da direção de Veltchek":

Essa temporada deve ser especialmente assinalada não só pela atmosfera criada pela presença prestigiosa e respeitável de um artista e mestre como Veltchek, como ainda pelo seu interesse cultural pelos próprios bailados brasileiros, visto que teremos, entre outros, o Uirapuru do maestro Villa-Lobos, criado aqui no Rio com tanta poesia através de Madeleine Rosay e, em São Paulo, pela emoção casada à sensibilidade nacional de Marília Franco, e agora editado pelo talento autônomo da criadora dos bailados brasileiros, ou seja, Eros Volúsia. É de confrontos como esse oferecido mediante três interpretações de um só bailado que se desenvolve o interesse do público pela dança, e se vai formando, com o próprio gosto, o espírito da platéia. Daí o dizermos que esta temporada de bailados oferece, sob este, como sob outros aspectos, um excepcional interesse para a nossa educação cultural e artística em matéria de dança”.

Particularmente sobre Marília, a revista Brasil Musical do mesmo ano publicou:
"... Ela, uma autêntica revelação, de grande temperamento; a coreografia uma obra-prima de estilo anti-acadêmico e perfeitamente moderno, com certa influência do expressionismo alemão".
De fato, ela era uma revelação, a julgar pela interpretação do papel título de “Yara”, ballet coreografado em 1946 pelo bailarino e coreógrafo de origem russa Váña Psota para o Original Ballet Russe.

Não sei quando Marília voltou ao Brasil. Em 1957 ela já era professora da Escola Municipal de Bailados de São Paulo, fundada pelo próprio Veltchek em 1940, seu amigo da vida toda.
Alguns dos melhores profissionais de São Paulo foram alunos dessa mestra, que atuou na escola oficial dirigindo-a por 33 anos. Uma de suas biografias menciona, dentre muitos outros, Aracy de Almeida, Gil Saboya, Ismael Guiser e Camila Pupa. - Marília Franco: 1923-2006.

Quedei-me comovida refletindo sobre as trajetórias dessas duas personalidades. Refleti sobre tantos/as companheiros/as que já se foram, anônimos, sem qualquer tipo de reconhecimento.
Não pode ser assim, não é justo que seja assim. Esses artistas viveram um belo ideal, ultrapassaram inúmeras dificuldades e acreditaram, até os últimos dias de sua vida, no ballet como técnica e arte viva da criação, expressão do belo e da poesia em forma de movimento.
Conforta-me dispor desse espaço, no qual colaboro há tanto tempo, para homenageá-las e afirmar o que já sabemos:

Todos os que passaram pelas mãos dessas mestras, que ouviram suas palavras, que amam o ballet, acreditam-nas vivas. E elas estão, só não sabemos onde.



Eliana Caminada é professora de História da Dança
na UniverCidade e Universidade Castelo Branco
e foi primeira bailarina do Theatro Municipal – RJ
Página pessoal: http://www.elianacaminada.net

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