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Aqui estão os destaques desta edição. >> Matérias - A dança de salão em festivais de todos os tamanhos para todos os gostos; Louise Lecavalier no Brasil e a volta da Quasar com "só tinha que ser com você". >> Colunistas - Caminada se despede de Halina Biernacka e Marília Franco: Leonel Brum e a demanda de mercado; Valério Césio conta o que foi a temporada 2005 do American Ballet Theatre.
Edição 71 - Mar e Abr de 2006
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A aposta na diversidade fez da temporada de clausura do 2005 do American Ballet Theatre um verdadeiro sucesso. Dezessete apresentações no City Center de Nova Iorque com a casa (quase) sempre cheia confirmaram a eficiência do repertorio multiestilístico.

A peça estrela da temporada foi “Gong”, última criação de Mark Morris para a companhia, com música de Colan McPhee e esplêndido vestuário de seu colaborador Iaac Mizrahi.

Mark Morris reedita seu romance com a técnica acadêmica, um romance vital e sobre tudo, muito bem humorado. “Gong” é uma obra etno-light, composta com a riqueza musical e espacial que é usual em Morris e com o bonus-track de uma indescritível e terna despretensão. Entre os quinze bons bailarinos que a interpretaram é inevitável registrar a projeção artística de Julie Kent e o brilho da ascendente uruguaia María Riccietto, em muito boa forma.

Outra das obras esperadas era a remontagem de “In the Upper Room” de Twyla Tharp que foi um grande êxito da companhia no fim da década de 80. A difícil tarefa de remontar esta intricada pauta coreográfica de Tharp coube ao bailarino Keith Roberts, que logrou um resultado extraordinário; conseguiu uma entrega quase total da companhia, o que produz uma energia inusual no palco.
“In the Upper Room” é uma peça hiper-ativa, que usa a eloqüente música de Philip Glass para transportar-se a um âmbito de motus-perpetuum, um espaço aonde os corpos vem de todos os lados, tanto das laterais como da grande massa de fumaça que ocupa a metade posterior do palco. Se bem que a possamos catalogar como uma obra abstrata, isto não a faz nada fria. O hábil entrelaçado das complexas seqüências de Tharp se transforma em uma verdadeira cama elástica de emoções, aonde saltam as mais diferentes sensações. Sem dúvida alguma se trata de uma obra mestra.
O repertório mais tradicional, sem dúvida, não teve tanta sorte como o contemporâneo. O “Apollo” de Balanchine (na sua versão completa) foi apenas eficiente, faltando-lhe um pouco de brilho ao estilo; o que não nos impede de apreciar os bons dotes técnicos de Veronika Part, Michele Wiles e Melanie Hamrick.

Algo parecido sucedeu com o “Tchaikovsky pas de deux” também de Balanchine; se bem o espanhol Angel Corella se esmerou em sua projeção; sua partenaire, a cubana Xiomara Reyes não tem ainda condições de enfrentar este desafio estilístico, sua performance não chega a ser crível.
Já no pas de deux de “Paquita” (Minkus/Petipá) a ucraniana Irina Dvorovenko mostrou o que é uma bailarina de ballet - com ótimo físico e academicismo a toda prova dançou com sustentável elegância apesar de alguns tropeços técnicos na coda. Seu partenaire o cubano José Manuel Carreño se desempenhou com o necessário profissionalismo.

Parece que a companhia está passando um momento no qual solistas e corpo de baile pulsam mais que os bailarinos principais.

Nada mais sábio que mesclar o repertório desta temporada com grandes obras do passado. A reposição de “Dark Elegies” de Antony Tudor foi acertadíssima, se trata de uma verdadeira aula de coreografia. Uma obra sóbria, austera, sem nenhuma gratuidade, que utiliza os famosos Kindertotenlieder (Canções para as crianças mortas) de Mahler para dar vida a uma paisagem humana descrita com oficio impar. Mesmo sendo a obra de 1937 se pode ver, desfrutar e entender perfeitamente no início do século XXI, o que é possível também graças a ajustadíssima reposição de Donald Mahler, um verdadeiro especialista no estilo Tudor.

Também na lista de oportunas reedições figurou “A Mesa Verde” (1932) de Kurt Jooss, outra jóia dos anos trinta que ainda não perdeu encanto e, portanto, não perdeu vigência. É importante registrar a boa execução da obra por parte do corpo de baile do ABT (com destaque para Isaac Stappas no papel da morte). Não é comum que bailarinos jovens, cujo treinamento é basicamente com aulas de ballet e executando tantas obras diferentes em uma mesma temporada, possam ter o desempenho tão fluido que eles tiveram. E o público fez sua parte ovacionando a iniciativa. Boas obras são para sempre.
(de Nova Iorque)

Valerio Cesio
é crítico e coreógrafo.

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